quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A "inclusão de nicho" e a luta pelos direitos das pessoas com deficiência

"Devia restringir o perfil de deficiência já nas cotas, pois essa área de atuação não é pra qualquer pessoa. Nenhuma empresa vai contratar um <????????> pra trabalhar!"

"Meu filho é não verbal e precisa de atendimento com terapia <???????>, que é mais adequada pra ele. Se não tiver esse tipo de serviço não vale a pena pra mim estar aqui!"

"Esse passeio tem recursos de acessibilidade, sim! Aliás, nem todos! Nesse caso só pessoas com <???????> podem fazer junto com o grupo."

Essas três sentenças eu já ouvi em contextos distintos, seja no trabalho ou em outros espaços em que tive que lidar com demandas relacionadas às pessoas com deficiências ou TEA. Escolhi só 3, mas poderia listar mais algumas que carregam significados muito parecidos e que eu sempre encaixo em uma categoria de inclusão que é muito recorrente e que eu chamo de "inclusão de nicho".

Pra mim, a inclusão de nicho acontece toda vez em que se prioriza ou destaca um subgrupo dentro de um grupo social formado por pessoas com alguma deficiência ou transtorno para o atendimento de alguma demanda. Ela se manifesta quando um grupo luta por seus direitos sem considerar a luta de outro grupo (ou do grupo mais amplo, quando estes se encaixam no mesmo "perfil"), ou quando sua demanda só é atendida parcial e pontualmente, sem qualquer preocupação em ampliação do escopo pelos agentes responsáveis pela solução.

Por exemplo, particularmente, eu fico incomodado quando se discute a criação de um centro de atendimento especializado para pessoas com TEA, enquanto outros grupos ficam excluídos por não estarem mais no centro do debate. Mesmo sendo pai de um autista! E o mesmo acontece quando são apresentadas soluções como a priorização das cotas (e essa eu já ouvi mais de uma vez!) ao invés de pensar alternativas de atuação profissional ou até mesmo cumprir um direito assegurado, como a educação ao longo da vida.

E se você não vê muitos problemas nessas falas, pois pelo menos algum tipo de inclusão já estaria em curso...é justamente isso que eu queria trazer pra reflexão. Até que ponto achar que "alguma inclusão" já é suficiente numa sociedade como a nossa? Uma mentalidade referenciada na inclusão de nicho não seria mais uma barreira de acessibilidade que freia o avanço da inclusão de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais?

O pior é que essa mentalidade também está impregnada em grupos de pessoas com deficiência que não percebem que, se reconhecendo como minorias (de fato!) deveriam mudar o "mindset". E deveriam aprender observando como negros, mulheres e outros grupos sociais que lutam por seus direitos para viverem em uma sociedade justa precisaram de tanto tempo pra sentirem os resultados da mudança na sociedade, mesmo não sendo "minorias". 

Sim, quero currículos concebidos considerando os vários perfis, centros de especialidades que atendem demandas comuns, e experiências pensadas em considerar mais diversidade. Se não sabemos fazer agora, que continuemos com essas metas em vista e não descansemos até que a inovação para a inclusão aconteça.

Que 2026 tenhamos consciência que a "inclusão de nicho" não pode moldar a mentalidade de uma sociedade que quer melhorar as condições de vida de pessoas com deficiência ou transtornos, seja em casa, no trabalho e no convívio com os outros.

E a minha causa, no contexto da inclusão, precisa ser a nossa causa! 

Ah, tá! Eu achei que seria legal dar um exemplo de como a inovação pode ampliar os horizontes de pessoas com deficiência. Esse é o Lucas Radaelli, engenheiro de software cego que trabalha no Google. Eu sempre faço referência a ele pra mostrar como uma tecnologia social criada por um professor de Matemática ajudou na sua formação como cidadão do mundo. Clique na imagem para conhecê-lo melhor e imagine possibilidades ao invés de se contentar só com "alguma inclusão"! 😉

Print de postagem do Instagram de Lucas Radaelli sobre a patente de seu time de inovação





quinta-feira, 16 de maio de 2024

Como criar hábitos saudáveis em um mundo digital?

 Eu preciso começar este texto esclarecendo que quem vos fala é um adulto de 46 anos que desde os 15 já era fascinado pelas tecnologias digitais. Aprendi a usar o computador com um software de treinamento quando estagiei no Banco do Nordeste, em Petrolina, e à mesma época já pedia pra meus pais me colocarem em cursos de programação em Juazeiro, cidade onde nasci (lembro bem das aulas que tive do QBasic!📼☎😊 ) . Claro, fui daqueles que pagava pra jogar videogame nas lan houses, pois não era porque não tinha em casa que ia deixar de "desfrutar" de uma tecnologia tão fascinante pra um jovem. Imagina! 

Minha atuação como professor sempre foi marcada pelo uso das tecnologias digitais no ensino...então eu sempre "respirei tecnologia". Meu TCC na especialização foi sobre o uso do Scilab no ensino de Cônicas (e olha que ele tá longe de ser uma solução "pedagógica") e no mestrado analisei as possibilidades de uso do Second Life nos contextos educacionais. Ou seja, sim, eu sou um entusiasta do uso das tecnologias.

Alguém com meu perfil poderia sempre "defender" as tecnologias digitais em qualquer debate. Não é o meu caso! Minha experiência sempre mostrou que se o uso não é norteado por um olhar crítico então sempre cairemos na armadilha de simplificar o debate ofuscados pelo fascínio que uma nova solução gera.

Confesso que meus olhos abriram mais no período da pandemia, com o aumento de horas de uso tanto no trabalho quanto em outras áreas da minha rotina. No entanto, o que mais tem me feito refletir sobre outras dimensões do contexto atual é o contato com a realidade de muitos jovens desde quando assumi a coordenação do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) do campus onde atuo. As demandas que tenho visto (relacionadas a estresse, depressão, solidão, ansiedade, etc) me fazem crer que precisamos nos aprofundar no tema.

Por isso achei que precisava expor isso aqui e compartilhar um material muito interessante que conheci ao longo da leitura do livro Tecnologia na Infância: criando hábitos saudáveis para crianças em um mundo digital, da premiada psiquiatra de Harvard, a Dra. Shimi Kang. 

O bom de uma leitura como essa é que nos apresenta as relações causa-efeito necessárias pra uma compreensão mais profunda de como as coisas acontecem. Na obra, a especialista descreve como os neuroquímicos (como dopamina, cortisol, endorfinas, oxitocina e serotonina) atuam no cérebro quando interagimos com alguns aparatos tecnológicos.

A autora faz isso através do relato de alguns estudos de casos com seus pacientes, além de mostrar como as empresas de tecnologia incorporam recursos e funcionalidades nas suas soluções que bebem dos estudos da psicologia cognitivo-comportamental para provocar determinada reação nos usuários. Inclusive cita o famoso "O Dilema das Redes", que me impactou (como muitos) ao trazer relatos de quem está por dentro das BigTechs sobre as estratégias das mídias pra ganhar nossa atenção, principal "ativo" da atualidade.

Bem, eu não entendo que descrever aqui como cada neuroquímico age vá surtir algum efeito pra você...até porque eu não sou especialista no assunto e não quero me arriscar a cometer algum erro. Sugiro que leia o livro pois ele tem uma leitura fluida e agradável, mesmo nos trechos mais "técnicos".

Mas posso deixar aqui 05 pontos de uma "dieta digital saudável" que acho viáveis de se implementar e que foram abordados no livro (tem muito mais orientações, claro!):

  1. Adie ao máximo possível o acesso às "telas" pelos seus filhos! - essa pode ser a principal orientação do livro. Eu tenho uma amiga que decidiu só dar um smartphone à filha depois de parte da passagem da infância...mesmo com as cobranças de porquê ela era "a única aluna da turma sem um celular". Todas as colegas já usavam, menos ela! Diálogo e paciência (além de diversificar as formas de ocupar o tempo livre e dar uma câmera pra produzir seus vídeos 😁) foram a solução encontrada pela família;
  2. Desative as notificações - configurando seu dispositivo para não te ALERTAR sobre mensagens recebidas e postagens nas suas redes sociais. Alguns estudos têm demonstrado que manter-se em estado de ALERTA continuamente desencadeia uma séria de reações que podem ser prejudiciais no longo prazo;
  3. Tire um dia de folga digital - calma que isso não é impossível! 😁 Mesmo que, pra você, usar as tecnologias digitais sejam necessidade por causa do trabalho, sempre tem o final de semana. Eu, por exemplo, tenho tentado não pegar no celular a partir das 12h do sábado até a noite do domingo. Ou pelo menos não acesso o WhatsApp que é o principal app para demandas de trabalho que eu uso;
  4. Evite o uso de tecnologia nociva - como o uso das redes sociais para comparação com outras pessoas, uso de vários recursos na ilusão de uma "multitarefa" que não existe, uso de recursos que promovam solidão, postura inadequada, períodos prolongados na mesma posição e privação de sono;
  5. Consuma a tecnologia saudável - ou seja, a que "libera endorfinas por meio da pausa e do autocuidado, oxitocina por meio de uma interação significativa com outras pessoas e serotonina por meio de brincadeiras e criatividade". Ou seja, usar aplicativos de monitoramento de atividades físicas, usar as redes sociais e aplicativos de mensagem pra conversar com amigos ou parentes que não vê há muito tempo ou até plataformas como o Khan Academy pra aprender algo novo de "Matemática" ou "Animação" são formas de uso saudável das tecnologias digitais...e até recomendadas!
É isso. Mesmo assim, eu continuo sendo entusiasta do uso de tecnologias na educação e em vários contextos da vida em sociedade. E ainda tenho mais um relato pra encerrar essa reflexão!
Por coincidência eu concluí a leitura do livro na última segunda-feira, no mesmo dia que tive que levar minha TV da sala para o conserto. E retirar a maior "tela" que faz parte da minha rotina só evidenciou uma coisa...o emaranhado de fios que ilustram a minha dependência do feed do Youtube que eu assisto sempre do meu sofá, por horas...até eu me perceber já quase afundando imobilizado por tempo demais com o corpo pedindo por um movimento.

O que podemos fazer? Só debater e refletir não resolve. 
Pra mim, por enquanto, o movimento está sendo fazer outras coisas de forma "desplugada", desde caminhar sem mídia tocando no fone de ouvido até ler meus livros e HQ's esquecidos nas prateleiras. Mas isso é só o começo...

Finalmente voltando a ter a companhia de Sherlock Holmes...

domingo, 31 de dezembro de 2023

Modelo Canvas para Design de Produtos Educacionais

 Último dia do ano e essa postagem só está saindo pra não deixar o hábito...ou teria que adicionar mais um item na lista de promessas para 2024. E eu quero é tirar coisas dela, mesmo que algumas tenham relação com produção textual (Spoiler...📚😀!). Mas 2023 veio com tanta coisa nova na minha rotina que eu não vou ficar me lamentando pela falta de tempo. Pelo contrário, vou valorizar o que tornou meu ano mais empolgante. 

Uma coisa que me deixou muito animado foi ter recebido o convite para ministrar uma oficina de Design Thinking para uma turma do curso de Mestrado Profissional em Educação ofertado pelo IFS através do ProfEPT - Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica. Nele os estudantes precisam criar uma solução educacional como parte da produção acadêmica exigida para a obtenção do título, o que se alinha perfeitamente à nossa visão institucional de contribuir na resolução efetiva de problemas da nossa comunidade.

Pois bem, com o desafio posto, mesmo que já tivesse ministrado oficinas de DT em outros momentos, e até mesmo usado a abordagem em uma disciplina inteira no curso de Licenciatura em Matemática (uma optativa que chamei de Intervenções Educacionais com Matemática), achei que precisava experimentar algo novo. A ideia foi a seguinte: "E se eu criasse um produto educacional usando o próprio Design Thinking como fio condutor do processo...enquanto estou ministrando a oficina com a turma?"

Primeiro eu pensei: "Muito arriscado! Nunca fiz algo assim..." 

Depois ponderei:"Assim que é bom, né?!"

E foi!!! Não imaginava que teria um resultado tão positivo. Tanto na minha percepção, quanto nos feedbacks dos participantes. Resumindo como rolou a coisa toda:

  1. Criei um Modelo-teste de Canvas para Design de Produtos Educacionais no Google Documentos que deveria ser impresso em folha A4 para ser usado por cada participante individualmente. Este seria o meu produto educacional;
  2.  Analisei se a estrutura estava alinhada com as etapas que eu seguia nas minhas vivências anteriores com a abordagem. Desde a primeira vez que o conheci até as experiências como facilitador de oficinas e na disciplina que já citei;
  3. Apresentei o modelo à turma, explicando que eles eram minhas "cobaias" e que, ao mesmo tempo que estaríamos aprendendo o que é o DT e como cada etapa pode ser implementada, eles estariam contribuindo para a validação do instrumento;
  4. Ao final da oficina colhi os feedbacks sobre o uso do instrumento e, junto com minhas observações de como cada um utilizava, fiz ajustes para a versão final.
Ah...pra ser um pouco mais detalhista, havia em torno de 20 participantes e eles estavam em fase de repensar as soluções já propostas aos seus orientadores. Nosso tempo era quase impraticável...2 horas (por isso, inclusive, me forcei a produzir o recurso ou não teria outro jeito de fazer acontecer). 
Foi muito gratificante ouvir relatos de que a abordagem permitiu que os mesmos ampliassem sua compreensão do próprio produto educacional e "destravassem" a criatividade para pensarem em alternativas mais interessantes para seus trabalhos.

Por isso, dentre as muitas discussões que participei e das coisas que fiz, se muitas delas foram sobre o uso das tecnologias digitais e até do uso das Inteligências Artificiais na Educação, eu acabo o ano tendo mais certeza que as trocas feitas com olho no olho, as interações humanas bem mediadas, e a ênfase nos processos criativos e de autoria ainda serão o maior avanço na educação em 2024.

E se você quer usar o DT nas suas práticas e gostaria de ter mais um recurso na sua "caixinha de ferramentas", aqui está o meu "produto" . Pode clicar na imagem para acessá-lo👇 . (Esse foi meu segundo modelo canvas fruto de experimentação...se quiser conferir o meu primeiro, criado em 2015, clique AQUI)

Canvas de Design de Produtos Educacionais

Finalizando o ano e eu até tinha pensado em aprofundar o debate sobra as ferramentas de IA pra meio que fazer o link com a primeira postagem de 2023...mas fazendo a retrospectiva percebi que as melhores experiências ainda foram baseadas na experiência humana como essa que tive com colegas num auditório, com cronômetro projetado na tela e anunciando a cada etapa: "Prontos?! Podem começar..."

Feliz 2024! 🎆🎉

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O ChatGPT já transformou a Educação!

Estou aqui no primeiro post de 2023 e nenhum outro tema poderia ser o meu foco de interesse.

Pois bem, se eu concluí 2022 falando que o Metaverso não era pra agora...tenho que dizer que a Inteligência Artificial já é o assunto que está deixando todo mundo da Educação de cabelo em pé. E principalmente o tão falado e debatido (em todos os grupos de WhatsApp que eu faço parte) ChatGPT! Mas se você chegou aqui pra entender o que é a ferramenta, me desculpe, mas não vou explicar o que ele é pois já há um montão de conteúdo rolando em todas as mídias sobre ele. Dá uma pesquisada no Google...ou no Bing, já que a Microsoft está integrando o recurso no seu buscador. 😁

Desde quando iniciou o burburinho na internet sobre como o ChatGPT pode impactar as atividades docentes eu tenho refletido e testado algumas interações com ele. A primeira impressão me remeteu a uma postagem minha aqui mesmo em setembro de 2018, quando eu argumentava sobre o fato de que  Alguns professores serão substituídos pelo computador, sim! Lá eu vislumbrava um tipo de assistente-tutor-virtual que poderia atuar no lugar de um profissional da educação em alguns contextos. E até dei um nome pro meu: "Pró"! Daí, nada mais óbvio que agora partir pro teste pra ver como isso seria possível...então foi o que eu fiz.

Entrei no ChatGPT com duas perguntas em mente. Considerando que eu fosse um aluno numa disciplina de Cálculo Diferencial e Integral que precisasse de uma ajuda pra resolver um problema perguntei: "como resolver a integral indefinida de x^2?". Dá só uma olhada na resposta...


Essa primeira foi mais um teste pra saber como ele lida com temas que usem uma linguagem matemática, considerando que os debates que tenho visto não focavam muito nesse universo. Achei interessante a resposta dada. Mas eu queria ir um pouco além, pois queria saber se ele consegue adequar bem esse tipo de texto para algo mais "didático", como já vi em alguns outros testes. Então continuei com o comando: "me explique como se eu tivesse 10 anos de idade". E o que veio realmente me surpreendeu...


Vou copiar na íntegra a resposta aqui pois no print não coube tudo:

"Pense na integral como uma forma de descobrir a área sob uma curva. Se você tem uma curva que representa a quantidade de alguma coisa (por exemplo, a quantidade de água em um recipiente), você pode usar a integral para descobrir a área total debaixo da curva.

No caso de x^2, a curva representa a quantidade de algo que cresce muito rapidamente conforme x aumenta. A integral de x^2 é uma forma de descobrir quanto essa quantidade cresceu ao longo do tempo.

Para resolver a integral de x^2, você precisa adicionar pequenos pedaços de área debaixo da curva. Para fazer isso, você usa uma fórmula especial chamada "integração por partes". A fórmula permite que você divida o problema em duas partes: uma parte fácil e uma parte mais difícil. Quando você junta as duas partes de volta, você descobre a resposta para a integral de x^2.

A resposta é x^3/3 + C, onde C é uma constante. Isso significa que, para qualquer valor de x, você pode descobrir a área total debaixo da curva x^2 até esse ponto."

Como professor de Matemática eu sei que nós não estamos muito acostumados a considerar a matemática falada como uma manifestação válida dessa ciência, e isso é um equívoco que cada vez mais tem sido corrigido. O que eu percebo aqui é um potencial muito grande mesmo no texto escrito para que tenhamos já agora a possibilidade de incrementar os materiais instrucionais e recursos didáticos interativos. Isso, por exemplo, confere o diferencial de um livro-texto quando comparamos dois autores: um que preza por evidenciar as nuances dos conceitos e relações e outro que acha que isso já está implícito no discurso (e que todos os alunos já deveriam entender naturalmente, se chegaram em determinado nível de ensino...o velho argumento de quem não entende bem como se dá o processo de ensinagem). 

Imaginando isso embarcado num dispositivo que me apresente uma interface amigável eu só penso o seguinte: a revolução já está aí! IA é o que vai dominar...se não aprendermos rapidamente como trabalhar com ela. Nos vários fóruns, muita gente diz que agora vamos precisar focar em ensinar a fazer boas perguntas, outros em voltar a usar práticas que evitem o uso das tecnologias digitais,  enfim estamos no período de questionar. Mas eu ainda acredito que é nas boas respostas e soluções que devem residir o peso de uma experiência de aprendizagem. Ainda continuo refletindo.

2023 começou assim...


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Metaverso na Educação? Ainda não...

 2022 foi o ano do "metaverso"!

Há muita referência para quem quer se aprofundar sobre o tema, mas de forma simplificada, o metaverso é um ambiente criado como uma extensão do mundo físico dentro do ciberespaço. Esse conceito não é novo, inclusive estou usando a definição que adotei lá na minha dissertação de mestrado, de 2012! E preciso confessar que já naquela época eu era um entusiasta dessa realidade que muita gente anda desenhando nos últimos meses, principalmente desde a entrada de Mark Zuckerberg no meio. Cabe dizer, claro, que o próprio conceito de metaverso evoluiu e hoje precisa ser revisitado. 😌

Bem, depois de perder alguns BILHÕES, Mark nos mostrou que estamos longe de viver em um mundo em que dispositivos de realidade virtual e aumentada são parte do nosso cotidiano. E se não chegou na minha sala de estar, dificilmente vai chegar na minha sala de aula, vamos combinar! A adoção de vídeos, de computadores e smartphones, por exemplo, como recursos didáticos só foi possível quando eles se tornaram acessíveis (tanto para aquisição, quanto para facilidade de uso).

Meu melhor avatar
Mas mesmo quando isso ocorre, eu ainda entendo que há outras variáveis que ajudam a criar um cenário propício para o uso de determinado recurso no contexto educacional. Por exemplo, eu hoje entendo que lousas interativas são recursos superestimados. E olha que eu já ministrei capacitação sobre o seu uso em sala de aula. Mas, sinceramente, acho uma péssima ideia adotar uma lousa digital em sala de aula. Geralmente só dá aquela impressão de que estamos num ambiente inovador...mas a relação custo-benefício é péssima! Depois de todo o debate sobre o metaverso tenho feito a mesma reflexão. O metaverso é a lousa interativa da vez!

Não quero ser pessimista, mas como alguém que desde 2012 tem acompanhado esse debate, não posso deixar de alertar os colegas entusiastas. O debate sempre será válido, e particularmente acho que ainda dá pra nos debruçarmos sobre o potencial dos mundos virtuais tridimensionais como ambientes de aprendizagem. Mas aí estou falando do Second Life (que foi o meu objeto de estudo, e ainda existe hoje...contrariando as previsões de muitos 😊), do Minecraft, do ROBLOX, ou qualquer outro...

Se você já usou aqueles cardboards de papelão com smartphone já sabe que a tentativa de tornar o recurso acessível financeiramente, acabava por não viabilizar uma experiência realmente rica na prática (e com usabilidade tendendo a zero!). Eu priorizaria outras vivências educativas...dentre as trocentas que temos à nossa disposição...

A sua instituição tem dinheiro pra gastar? Cabe pensar e repensar nas melhores soluções considerando quantos alunos e alunas serão impactados, quantas são as formas de usar o recurso, como será a manutenção, etc. Pense como um gestor nessa hora! Mas não como aqueles que querem só "maquiar" a escola, claro!

Pois é isso. Passei o ano pensando em fazer essa postagem e só pude fazê-la agora. Pensei até que minha opinião iria mudar. Mas não!

Eu esqueceria o metaverso em 2023...e nos próximos 10 anos, provavelmente...Mas a moda vai voltar, né?! Paciência. Só não podemos esquecer que temos demandas mais urgentes a resolver. E boa parte das soluções virá do mundo físico, com olho no olho, com a mão na massa, com experiências multissensoriais.

Feliz Ano Novo!


terça-feira, 15 de março de 2022

A Matemática e suas Tecnologias nos Itinerários Formativos do Currículo Sergipano

2022 começou com tudo aqui em Sergipe!

Se você se ligou no título dessa postagem já imagina que devo estar falando sobre o cenário educacional. Pois é, foi lançado em formato digital, pela Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura, o "Currículo de Sergipe: Integrar e Construir - Ensino Médio". O material apresenta um norte para as redes de ensino tomarem como referência na implementação do Novo Ensino Médio no nosso estado. 

Claro, como um professor que atua em um curso de Licenciatura em Matemática eu tenho particular interesse no teor do documento, no entanto confesso que minha primeira passada de dedo foi na parte referente aos itinerários formativos em Matemática e suas Tecnologias. Minha expectativa era de ter mais subsídios pra fundamentar alguns debates que sempre surgem em algumas disciplinas que leciono, como Iniciação à Docência em Matemática. O questionamento sobre como o currículo permitiria o aprofundamento de alguns aspectos que julgamos importantes para a formação do indivíduo, e que não são previstos na formação geral básica, sempre me levou a responder citando os itinerários formativos como alternativa viável.

Então fui lá conferir as sugestões que estão previstas no documento, e aproveito pra listar aqui apenas os títulos e temas (cada uma é detalhadamente apresentado no texto e precisa ser lido na íntegra...depois aproveite e clique no link que deixei disponível mais acima ☝😁):

  • Sustentabilidade, o que a Matemática tem a ver com isso?
    • Matemática como intervenção solidária
    • Matemática e suas aplicações (nesse inclusive acho que há um erro de digitação na descrição, pois nas "Orientações didáticas" o tema é indicado como "Matemática em época de pandemias"...ou eu interpretei errado 😊 )
  • Matemática no mundo digital
    • Letramento digital
    • Construção de audiovisual
    • Canal Matemática na Ciência
  • Etnomatemática, um encontro entre culturas
    • Existem outras matemáticas?
    • Etnomatemática através de origamis
  • Matemática e temas político-sociais
    • Pensar a matemática politicamente
  • Sou empreendedor
    • Empreender, um desafio para quem gosta de desafios
    • A hora de pôr a mão na massa, como empreender
  • Laboratório de Matemática computacional
    • Matemática dinâmica
    • Introdução a algoritmo
  • Educação Financeira
    • Descobrindo a importância de economizar
    • Como ter o controle financeiro
Particularmente, achei bem interessantes as propostas. Algumas, ao meu ver, são mais restritivas (mesmo que sejam legais), como a que prevê o estudo dos origamis (daria pra ampliar o tipo de produções e manifestações culturais associadas às etnomatemáticas). Também senti falta de um tema que se voltasse ao aprofundamento do aspecto lógico-dedutivo que é inerente ao saber matemático (e com a maturidade cognitiva do aluno do Ensino Médio, poderia perfeitamente estar contemplado como proposta de título ou tema). Esta proposta estaria, inclusive, alinhada à competência 5 e a outros pontos da própria BNCC, que nos mostra que a Matemática pode (e precisa) ir além das aplicações práticas.

Mas no final das contas, o legal é que o currículo é dinâmico e ele vai evoluindo ao longo do tempo, né? E o bom é que já terei mais argumentos pros debates...que agora, com certeza, serão mais frequentes considerando que a partir deste ano todas as redes devem se adequar à essa nova realidade. Além disso, todes nós precisamos, como agentes de formação docente, começar a articular formas de dar um suporte às redes da Educação Básica para que as mudanças tragam impactos positivos para a formação dos jovens e para a nossa sociedade.

Agora...acho que o ano só vai começar mesmo quando cada professor/a estiver naquela primeira prática de um desses itinerários, seja com um papel com dobraduras ou um computador à sua disposição. Então, um 2022 de boas descobertas e grandes experiências pra vocês! 😉

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

MEU CONVITE AOS PROFESSORES: #SEMRETROCEDER EM 2022!

Márcia é professora de uma turma do Ensino Fundamental e nos últimos dois anos teve que assumir uma posição difícil na sua carreira: incorporar ao seu cotidiano o uso das tecnologias digitais no período de Ensino Remoto Emergencial (ERE) imposto pela pandemia. Ela está terminando 2021 saturada com todo o trabalho de planejamento e execução de práticas que não trouxeram aquela sensação de realização por um trabalho bem feito ao longo do ano, que sempre tinha antes de sua vida virar de ponta a cabeça (ou da sala ao Meet). Ela não vê a hora de retornar "ao presencial" e deixar pra traz esses tempos sombrios.


A Márcia do relato pode ser tanto uma personagem do humorista Diogo Almeida que tem ajudado a passarmos (nós professores e professoras) com alguma leveza por esse período pandêmico (se não a conhece clique no link :-), quanto representar tantas educadoras e educadores que estão tomando aquele fôlego para iniciar o ano novo com algumas expectativas. E uma que eu tenho percebido, em algumas falas de colegas, é a de deixar de usar esses tantos de recursos tecnológicos que foram adotados nos últimos anos, com o argumento de que não teria sentido continuar com eles na volta ao nosso "normal". 

Por isso essa última postagem do ano traz uma proposta de reflexão e apoio ao movimento #SEMRETROCEDER, encabeçado pela querida amiga educadora Roberta Aquino. Nesse caso também vou aproveitar minha experiência na participação em alguns programas de formação docente ao longo dos anos, tanto vinculados ao MEC quanto aqueles das instituições por onde passei, para trazer pontos que valem a pena considerar. Peço apenas que reflita por alguns minutos sobre cada um deles com sua "mente aberta". 

  1. Sempre percebi que a busca pessoal por capacitação sempre apresenta mais resultados do que a imposição de cima para baixo. Desde o início do ERE a pegada foi essa: nos foi imposto o uso de tantas ferramentas que eram desconhecidas por muitos. Mas você sabia que não é de hoje que se fala sobre as potencialidades do uso dos recursos digitais no ensino? Sabia que algumas delas já estavam aí disponíveis há, pelo menos, uns 10 anos atrás (e muitos professores já adotavam mesmo antes da pandemia)? Você acha que conheceria esses recursos em outro contexto? O lado positivo disso tudo foi a descoberta de tesouros que estavam praticamente enterrados pra muitos profissionais.
  2. Muitos de nós sempre usou o argumento de que muitas escolas não possuem infraestrutura adequada para o trabalho pedagógico com as tecnologias digitais. Pois bem, não apenas nós fomos obrigados a nos capacitarmos (pelo menos minimamente) para o uso de alguns recursos, mas as redes e instituições também foram obrigadas a melhorar (também minimamente, em muitos casos) sua infraestrutura. Sua escola melhorou ou instalou uma rede wifi? O laboratório de informática voltou (ou começou) a ser usado para dar suporte a alguns alunos que não tinham acesso às atividades em casa? Sua escola adotou práticas suportadas por plataformas digitais e entende melhor as possibilidades de uso educacional e administrativo? Aproveite se isso aconteceu na sua escola, pois agora há mais que uma brecha para consolidarmos algumas práticas! 
  3. Como eu expliquei certa vez a uma aluna que cobrava alguma "inovação" dos professores nesse período de ERE, o que muitos de nós viveu foi como um estudante de medicina que está tentando fazer o parto do próprio filho num elevador do hotel em que ele e a esposa estão passando as férias. E nesse contexto "emergencial" como esperar qualquer inovação? Pois é, mas isso não quer dizer que em cenários mais propícios o potencial das ferramentas que foram apropriadas por todes não seja elevado exponencialmente. Mesmo, e principalmente, no cenário do retorno das aulas presenciais. Com mais capacitação, materiais e métodos mais adequados tudo vai mudar...pra melhor! Pra você e pros seus alunos, não tenha dúvidas!
Então é isso! Saiba que em tantos anos atuando com formação docente para o uso de tecnologias digitais eu sei que não adianta só apresentar uma ferramenta sem promover uma cultura digital em todo o ecossistema. Talvez essa cultura possa ser iniciada a partir de 2022! Quem sabe? (E eu nem citei o que prevê a BNCC, né?!) 

E mesmo que ainda prefira se manter longe dos aparatos tecnológicos por um tempo (pra respirar um pouco e melhorar daquela LER que está te incomodando tanto), você pode ir adotando alguma ferramenta de vez em quando. E ir testando em novos contextos, continuar participando de eventos de formação continuada com mais calma, e aos poucos ir incorporando e contribuindo para a consolidação dessa cultura na sua instituição.

Então, colega... descanse, respire, e tenha um 2022 mais leve (com ou sem a Márcia ;-)! Força, fé e axé!